Texto publicado no Jornal Notícias do Vale de 08/04/2010
Tomo a liberdade, de com o consentimento de uma grande amigo, publicar uma carta que me enviou está semana de Macau...
Caro Amigo Nuno
É pouco o tempo, quando a ilusão tudo abarca, e a fome de novidades é insaciável. Desta feita, o regresso a Macau, que tem tanto de pequena como de exótica, fi-lo com outras lentes. (Gostava que visses, as possibilidades destes vinte quilómetros quadrados são intermináveis) .
Vim com tempo para gastar. Com vontade de descobrir, desta vez, lentamente, uma terra que não sendo nossa, tem tanto de familiar. Como já sabes, o meu pai nasceu aqui. Não levou com ele nenhum relato, porque voltou a Portugal numa idade tenra de memórias, mas parece-me que deixou aqui, como tantos outros, um bocadinho da nossa história natal. E assim, há pedaços reconhecíveis, pintados a cores exóticas, que facilitam a minha integração.
Há, no entanto, uma face oriental também, mais visível. Porque a face que reconheço acima, é intangível, pode apenas sentir-se. O exotismo oriental, esse, está presente em tudo. As ervas são diferentes, as cores, mesmo o ar que se respira, dir-se ia não partilhar uma só molécula com o ar que respiramos desse lado do globo. Este daqui, não se respira, ingere-se, tal é a humidade que arrasta. Mudam assim as cores, as texturas e os sentidos, todos toldados por esse excesso de água no ar. E dissolvemo-nos a cada passo que damos a mais, em busca de uma sombra, quando os dias são quentes. A distância entre pontos é inversamente proporcional à resistência ao calor, e os lugares fogem-nos como se estivéssemos constantemente em cima de tapetes rolantes, na direcção errada. E ainda assim, Macau não fecha. Macau funciona 24 horas por dia, e, não fosse a presença ou ausência de luz, seria impossível saber as horas olhando apenas para o ritmo dos habitantes. Se o dia é interessante no brilho ofuscado pela humidade, a noite é um festival de sabores para os olhos. Os néons mais estapafúrdios, que só fazem sentido aqui, inebriam e confundem o resto dos sentidos, mas ao mesmo tempo, maravilham.
(Por falar em néons, há uns dias fui passar o fim de semana a Hong Kong, mas isso, contar-te-ei noutra altura. As cidades têm outra dimensão aqui. Se achei Macau espampanante, Hong Kong tirou-me o fôlego.)
E desta vez, não é só a viagem que é aventura. Desta vez, começo aquela aventura por que quase todos passaremos, e que é independente do lugar, da cultura e da língua. Porque desta vez já não tenho rede por baixo. É a aventura de ser adulto, de o ser sozinho e de não lhe poder fugir. Sabes tão bem como eu, o quanto tentei adiar este momento da idade adulta, e agora, tenho um bocado de pena que não estejas por aqui para testemunhar a coragem com que, todos os dias, na China como podia ser noutro sítio qualquer, me entrego a um emprego, a uma rotina sem graça, em que as imagens exóticas de Macau e da China competem com os bons cafés em boa companhia, que tomávamos em Vila Real.
Essa felicidade de que tanto se fala e tanto se busca, tem as formas que lhe quisermos dar... Formas românticas quando se está fora, e formas alegres quando se está em casa.
Espero que saibamos dar a todos os pequenos momentos, a importância que merecem.
Um abraço, com saudades das conversas do café durante a tarde.
Zé Mário
P.S. (e não te esqueças)
“Recomeça....
Se puderesSem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuroDá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças”
Miguel Torga
1 comentários:
Há mar e mar, há ir e voltar…
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