Terça-feira, 11 de Maio de 2010

“O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita”

Texto publicado no Jornal Notícias do Vale de 06/05/2010

Sempre adorei a lógica popular. Esta é a máxima usada pelas gentes do nosso querido Portugal para descreverem uma situação ou pessoa sobre a qual pairam dúvidas. Nestes tempos modernos nada parece mais acertado que a intemporal sabedoria Transmontana. Falo é claro da muita tinta tem corrido acerca das ajudas económicas à Grécia que a União Europeia tarda em libertar. A Grécia, tal como Portugal, recebeu durante décadas fundos estruturais da União Europeia como objectivo de tronar a sua economia competitiva, com politicas sociais justas. A crise financeira veio expor de certo modo o mau aproveitamento destes fundos, digo de certo modo pois penso que a causa para o problema Grego (bem como Português e quem sabe Espanhol) é mais complicado do que a racionalidade financeira que nos querem vender. Como esclarecimento vamos olhar para alguns dos malabarismos financeiros em marcha.

A Alemanha tem vindo a bloquear de certo modo as negociações relativamente ao modo de como a ajuda financeira à Grécia deve ser operada. Uma das exigências feitas é que nenhum estado-membro deverá perder dinheiro com a operação de ajuda. Convém referir que tecnicamente não é uma ajuda no sentido em que muitos pensam, isto é, cada cidadão Português não vai na realidade enviar dinheiro para a Grécia.
O financiamento a Atenas deverá ser realizado através de emissões de dívida, não afectando directamente o bolso dos cidadãos. Per capita, Portugal vê-se assim obrigado a “ceder” 194 euros à pátria dos jogos olímpicos caso esta decida activar na totalidade o fundo ao qual tem direito. Posteriormente a Grécia devolverá o empréstimo à taxa de 5%, os juros serão canalizados para um fundo Europeu que será distribuido de acordo com a percentagem de participação que cada país tem no Banco Central Europeu. Uma lógica simples que segundo Bruxelas vai permitir ao Estado sair a ganhar com a operação.

Ora bem, vamos por partes. Primeira, compreenderam o modos operandis da ajuda financeira? Parabéns, eu precisei de algum tempo para compreender minimamente toda esta linguagem e artimanha financeira. A lógica do discurso no entanto parece desviar-nos do cerne da questão. Vamos assumir que toda esta teroria monetária se concretiza, isto é, Portugal emite créditos de dívida no valor estipulado, Grécia paga os juros fixados e o dinheiro é novamente redistribuido. Não ponho dúvidas que Portugal pague nem que a distribuição do dinheiro seja justa, o que salta de imediato à minha cabeça é: e se a Grécia não pagar? Não é a meu ver nada de surpreendente. Ninguém sabe como vai estar a situação económica daqui a cinco ou dez anos. O que chamamos crise financeira hoje pode até não ser tão mau como outras que poderão vir a existir. Nenhuma teoria económica previu a crise de 2001 ou de 2009 e de certo não podem informar sobre outras que estão inevitavelmente para vir.

Façamos um paralelismo com o caso do controlo do défice exigido por Bruxelas aquando da entrada em vigor da moeda única. O estipulado foi que nenhum país deveria ultrapassar a barreira dos 3% de perdas anuais, ainda se lembram? Portugal foi então um dos primeiros a ultrapassar a mítica barreira o que provocou alguma movimentação no seio da União. Quando França e outros países se juntaram ao clube dos mais de 3%, a União, como vem sendo habitual, não exigiu medidas drásticas mas antes aliviou as regras e pediu garantias. Garantias que, no nosso caso, pouco valeram, quanto foi o défice em 2009? Não interessa, o que importa referir é que a União Europeia nasceu bem. Parte do princípio da solidariedade, alivia as regras e tenta ouvir todos os interessados antes de tomar decisões. Não previlegia os grandes países ao contrário do que muitos pensam, apenas lhes dá o direito de actuarem em linha com a sua expressão demográfica e económica.
O que nasceu mal foi a classe tecnocrata que domina o panorama politico na Grécia e Portugal. Uma classe habituada aos aparentemente inesgotáveis fundos azuis gastos ao sabor do Hino da Alegria. É aqui que o problema reside. Apesar de concordar com a ajuda à Grécia, confesso que ponho as minhas dúvidas se esta fórmula resultará no futuro ou se resolverá os problemas de base que as economias Mediterrâneas têm. O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita.

Que tal uma proposta inovadora. Em vez de a Alemanha ou Inglaterra cederem créditos de dívida, que tal cederem alguns dos seus políticos em troca à Grécia? Que tal exportar conhecimento em vez de dinheiro. Diz um ditado chinês, dá um peixe a um homem e ele terá de comer por um dia, ensina-o a pescar e terá comer para toda a vida. Os nossos políticos, representados pelo nosso Primeiro Ministro não sabem pescar e para piorar a situação o peixe no mar já não é assim tanto.
Será que não há por aí melhores pescadores?

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