Quarta-feira, 5 de Maio de 2010

Pocinho – Barca de Alva

Texto publicado no Jornal Notícias do Vale de 07/02/2008

A uns tempos atrás, descrevi nas páginas deste jornal, a viagem fantástica que fiz de comboio ao longo do rio Douro. Mais propriamente a ligação entre a Régua e o Pocinho.
Desde essa altura ficou-me na ideia completar o percurso que liga o Pocinho a barca de Alva…
Hoje estou aqui para vos descrever a caminhada fantástica que fiz no fim de semana de Carnaval, juntamente com o grupo de pioneiros do Agrupamento de escuteiros de Vilarinho, ao longo dos últimos 28 Km que faltam percorrer até atingir Barca de Alva.

Para contextualizar a caminhada dizer-vos só que, a Linha Ferroviária do Douro – Porto São Bento / Barca de Alva – tem 202.200 Km de extensão e desenvolve-se na sua maior parte junto às margens do rio Douro, ligando actualmente o Porto ao Pocinho – 174.200 km. Foi uma notável obra de engenharia concluída em 1887 após doze anos de intensos trabalhos, vencendo-se inúmeros acidentes naturais, facto comprovado pelos 26 túneis e 30 pontes que nela existem. Em 1988 interrompeu-se a circulação entre Pocinho e Barca De Alva na sequência da decisão espanhola (1985) de abandonar esta ligação fronteiriça

Para quem desejar fazer está caminhada uma dica, equipe-se devidamente no que respeita ao calçado. A caminhada é feita quase sempre em cima da pedra ou das traves da linha. Outro pormenor é a ausência de sítios para comer ou abastecer água ao longo do trajecto.
Sábado dia 2 de Fevereiro, partimos de comboio de Penafiel com destino ao Pocinho, lá chegados, foi hora de reconfortar o estômago, retemperar as forças e preparar o início da caminhada.
A bom ritmo começamos a caminhar em direcção ao nosso primeiro objectivo, a estação do Côa (10Km). Durante os primeiros 6 km, a linha e o Douro contornam um cabeço coberto de vinha, surgindo o primeiro viaduto metálico na transposição do Vale de Calibem. Logo a frente vimos surgir a estação do Côa, onde pernoitamos a primeira noite. O tempo ameno com o sol a brilhar que nos acompanhou neste dia, ajudou na caminhada, e permitiu-nos contemplar a paisagem das arribas do Douro em todo o seu esplendor. O abandono da linha é notório. A vegetação cobre quase toda a linha, havendo mesmo zonas onde esta está degrada.

A manhã do dia 3 nasceu cinzenta, a chuva já se tinha feito sentir durante a noite, mas as tendas resistiram, e depois de uma noite bem dormida é já tempo de voltar a deitar pés a linha, pois ainda faltam percorrer 18 Km.
Saídos da estação do Côa, surge-nos pela frente um novo viaduto em muito bom estado sobre a foz do rio Côa. Os 3 Km seguintes são duros, com muito mato, entulho e desmoronamentos. O trilho chega quase a desaparecer. Mas com a energia e força que nos é característica lá conseguimos ultrapassar as adversidades. O corpo já começava ressentir-se do esforço. Mas com o espírito de entre ajuda sempre presente lá fomos avançando. Durante quase todo o dia tivemos a chuva por companheira. O que dificulta ainda mais a progressão. O piso molhado é propício a quedas.

A próxima estação a ser alcançada é a de Castelo Melhor, aqui fizemos uma paragem mais perlongada, para comer qualquer coisa e retemperar forças. O corpo, especialmente os pés e os ombros, já pediam descanso.
De volta ao caminho, encontramos o primeiro túnel com 79 m de extensão. Para logo depois passarmos mais um viaduto de 105 m sobre a ribeira de Aguiar. Os 2 km seguintes são feitos com a linha desimpedida de mato ou entulho, a estação de Almendra está já lá ao fundo.
Na estação de Almendra repousamos mais um pouco e pudemos apreciar a arquitectura da estação que servia a localidade com o mesmo nome situada a 12 Km. A estação, tal e qual como todas as outras que encontramos pelo caminho, está abandonada, mostrando sinais de degradação e vandalismo. Mesmo assim é possível apreciar a beleza do edifício.
De novo de mochila às costas, pois a noite já se aproxima, voltamos a linha, para 800 m depois, ultrapassarmos o último túnel, com 91 m, À saída do túnel espera-nos um paisagem lindíssima. Um ondular de vinhedos que se estende desde as margens do rio, até ao alto do monte. Este ondular perlongasse por largos metros, parecendo nunca ter fim, transmitindo uma sensação de infinito e imensidão muito próprias do Douro.

As forças vão faltando, as paragens para descansar são cada vez mais frequentes, mas a ânsia d atingir o objectivo e a paisagem retemperadora, ajudam a ultrapassar os obstáculos.
O último viaduto é ultrapassado e já de noite conseguimos avistar a ponte rodoviária sobre o Douro, toda iluminada, lá ao fundo.
Não há quem nos pare agora.
Apesar da dureza da parte final do percurso, este é feito sem paragens em passada larga e constante.

Barca de Alva, o nosso objectivo, é atingido já o sol se tinha posto há algum tempo.
Cansados, fatigados, extenuados, dirigimo-nos a escola primária, gentilmente cedida, pela Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo e ai pernoitamos.
Mais uma vez absorvi as belezas do Douro e o porque de ser Património Mundial da Humanidade.

Só não percebo o porque de a linha que liga o Pocinho a Barca de Alva continuar desactivada. Espero que as últimas notícias que dão conta da reactivação da linha tenham um final feliz.

Gostava que muitos mais pudessem desfrutar do prazer que eu tive em olhar o Douro ao longo destes 28 km.

1 comentários:

Anónimo disse...

grande passeio.....lembro-me especialmente dos preparativos loucos para a longa jornada e da partida da Régua...vai-se lá saber porquê...
bjs