Segunda-feira, 14 de Junho de 2010

Esta educação não é para velhos...

Texto publicado no Jornal Notícias do Vale de 03/06/2010

Não, não venho falar de cinema. Apesar do título ser inspirado na obra ficcional dos irmãos Coen a história que vos trago hoje é bem real.
No dia em que se comemora o Dia da criança veio a público a notícia que a idade pediátrica vai ser alargada. Anunciou o Ministério da Saúde que a partir de hoje a especialidade médica dedicada à assistência à criança e ao adolescente vai ser de "forma gradual e progressiva" estendida até aos 18 anos.
Ainda hoje ouvi na rádio TSF o Presidente da Sociedade Portuguesa de Cirurgia Pediátrica, Dr. Paolo Casella dizer, que não fazia sentido ser ele a operar um míudo de 14 anos que pesa 90 kilos e tem uma apendicite. Que este tipo de situações deveriam passar a cirurgia geral e não passar pelos cuidados pediátricos, pois assim estasse a perder tempo, que pode ser precioso para quem realmente necessita dele. Um grande contracenso este de estender a idade do cuidados pediátricos até aos 18 anos.
Penso que esta extensão não trás nenhuma novidade ao sistema Nacional de saúde e desconheço, em que medida esta nova lei trará verdadeiros benefícios à criança e ao adolescente.
Numa Europa cada vez mais envelhecida e onde os jovens são “forçados” cada vez mais cedo a agir como pseudo-adultos, esta nova lei parace ser um paradoxo. Passo a explicar.
Ainda sou do tempo que, para receber o título de licenciado em Portugal era necessário estudar por cinco anos. Hoje em dia este prazo foi reduzido para três anos. Não quero questionar as implicações qualitativas na educação que esta medida teve. Apenas quero salientar que anteriormente um jovem tinha de esperar até aos 23 para ser licenciado, hoje em dia só tem de esperar até aos 21 para gozar do mesmo título. Outro exemplo curioso prende-se com o facto de ainda há pouco tempo grupos de esquerda lançaram uma proposta de lei para baixar a idade de voto para os 16 anos. Engraçado pensar que se tal medida fosse hoje para a frente nas próximas eleições teriamos jovens ainda na pediatria mas a eleger orgãos de soberania Nacional. É claro que a situação acima referida é anedótica mas serve para ilustrar uma mudança estrutural profunda na nossa sociedade.

Vivemos hoje mais e melhor que qualquer antepassado nosso e os serviços de saúde são chamados a enfrentar esta nova realidade estendendo os serviços pediátricos.
Mentalmente parece que os jovens não têm qualquer problema em entender o Mundo complexo em que vivemos. As suas mentes estão mais carregadas de informação aos 14 do que a minha estava aos 23. No futuro é de esperar que esta evolução seja ainda mais rápida. Na América já existem escolas primárias onde se tem que entregar um curriculo para ser avaliado.
A medicina no entanto esticou as leis da biologia no sentido inverso. No Japão, chegar aos 100 anos vai-se tornando cada vez mais comum (pelo menos entre as senhoras). O nosso corpo dura mais tempo, mas a nossa mente é “adulta” cada vez mais cedo. Parece contraditório, já que vivemos mais tempo faria mais sentido demorar mais a “crescer” mas é precisamente o contrário que se passa. A pediatria em Portugal parece que está de acordo com a tendencia biológica da sociedade, ou seja, tratar os jovens como crinaças até mais tarde. A educação parece estar no sentido inverso, isto é, dando pouco espaço temporal aos jovens de decidir o que querem e quando querem.

O nosso País tem, infelizmente, uma educação estandardizada e em versão turbo. Todos são tratados por igual e as bifurcações profissionais a escolher chegam cada vez mais cedo. O único caminho possível parece ser o vulgo trajecto infantário, escola, liceu, universidade. Não se para para pensar, não se reflecte sobre as reais capacidades do jovem, as avaliações são medidas burocráticas instituidas ao quase-livre critério dos professores, sim, esses mesmos que não querem ser avaliados mas que avaliam. Estranho.
Sou da opinião que uma redução da velocidade com que o sistema educa é fundamental num futuro onde a nossa vida demorará mais tempo. Em jeito de conclusão deixo um desabafo.
Neste País de educação célere, pobre do jovem que fizer as escolhas erradas, uma vez que o mais certo é ter de as aguentar durnate muitos e muitos anos.

0 comentários: