Depois de mais de 3 anos a escrever quinzenalmente no Jornal Notícias do Vale, decidi passar as minhas reflexões pessoais, crónicas, chamem-lhe o que quiserem, para este Blogue. Irei dar ínicio com os textos publicados desde o ínicio do ano de 2009, publicando os mais antigos a espaços. Espero que esta partilha de informação se torne num ponto de partida para mais ideias e futuros textos.
Terça-feira, 29 de Março de 2011
Nós e eles
Texto publicado no Jornal Notícias do Vale de 03/03/2011 Sem ninguém prever, sem um “líder” que os orientasse, fruto apenas de uma convicção em algo real mas indefinível que dá pelo o nome de liberdade. Em linhas gerais, esta podia muito bem ser a descrição dos eventos que levaram o povo Tunisino a iniciar um efeito dominó de esperança através do norte de África. Depois do difícil Egipto segue-se a quase impossível Líbia. Num eco um pouco mais distante, no reino do Bareihn, negociações já se iniciaram para melhor incorporar as minorias étnicas e proceder a uma melhor distribuição de oportunidades fruto das riquezas naturais do país. Numa mais próxima, Europa, olhamos com agrado as notícias que sopram do lado quente do Mediterrâneo. Exibimos a alegria, diria “standard”, de alguém habituado à tradição democrática do voto, das sessões no parlamento e da pluralidade de ideias. Estamos em geral alegres por países vizinho (que muitos só conhecem pelas piores razões) darem o primeiro passo para a representatividade popular. Esta alegria que nos contagia pode no entanto ofuscar algo de muito mais sério, pode ofuscar as lições que nós devemos aprender com os nossos semelhantes Tunisinos e Egípcios. O norte de África é um palco extremamente sensível em termos políticos. A Europa olha para o norte de África com um misto de simpatia e preocupação. Simpatia pois até agora o norte de África serviu de tampão efectivo à insurgência de grupos islamitas radicais. No seu discurso a 28 de Fevereiro de 2008 na Tunísia, Sarkozy também foi bastante claro sobre as opções do povo Tunisino. Ou co-habitavam com um ditador amigável ou se sujeitavam a um regime tipo-taliban no norte de África. Esta dualidade de opções é muitas vezes apresentada ao povo como verdades imutáveis. Por exemplo, aquando dos ataques do 11 de Setembro, as opções de J.W. Bush para o resto do Mundo eram simples. Ou se estava do lado dos Estados Unidos da América, ou se estava do lado dos terroristas. Depois das revoltas na Tunísia e Egipto, existe agora a preocupação se a estrutura política dos países em questão tem ou não a maturidade suficiente para conduzir as reformas necessárias. Muitos apelam para o perigo de extremistas islamitas se instalarem no norte de África. Em França e Itália soa o alarme a possíveis vagas de emigrantes que decidam encontrar nas costas da Europa um refúgio aos tumultos de Tripoli. Com tal variedade de possíveis cenários a dualidade de opções deixou de existir, algo que apoquenta qualquer político. Vejamos agora o que se passa no nosso país. O governo inunda televisões, jornais e rádios presenteando o País com apenas dois cenários possíveis. Ou o governo executa o seu orçamento ou não tem condições para governar. Comentadores políticos postulam se o recém-eleito Presidente da República dissolve ou não o parlamento. Os exemplos são vários. Parece que a mente política não consegue lidar com mais que duas opções. O que fica demonstrado pelos acontecimentos no norte de África é que não existem só dois caminhos possíveis como muitas vezes nos é dado a entender. O que a Tunísia ou Egipto farão com a liberdade conquistada é, a bem dizer, irrelevante. Não estamos limitados a duas opções, em geral ambas más ou nenhuma boa, dependendo da perspectiva. Existe sempre um terceira, quarta ou quinta via. Esta é a grande lição que a Europa, e em especial Portugal, deve retirar dos acontecimentos recentes. Em Portugal o governo faz-nos crer que é impossível outro caminho que não o seu. Há dois meses atrás ninguém acreditava que um grupo não coordenado de Tunisinos fize-se cair vinte e quatro anos de ditadura, provando que o impossível afinal até acontece.
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